Psicologia do Trabalho: carreiras significativas e trabalho decente

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Fórum Internacional sobre carreira, 2026

No Career Forum deste ano, pesquisadores de 13 países discutiram o futuro do trabalho. Entre eles, David Blustein apresentou a palestra “Aplicando a Psicologia do Trabalho: Coaching de Carreira e Aconselhamento para Vidas de Trabalho Significativas, Sustentáveis e Inclusivas”. A apresentação instigou profissionais de carreira, psicólogos e profissionais em consultoria de desenvolvimento de carreira a repensar o trabalho para além de escolhas individuais, colocando em destaque as condições sociais, econômicas e institucionais que moldam as trajetórias profissionais.

 

Por que uma nova teoria em Psicologia do Trabalho (POT)?

Blustein iniciou sua fala com uma crítica aos modelos tradicionais de carreira  Segundo ele, algumas teorias de desenvolvimento de carreira se direcionam pessoas que têm liberdade real para escolher sua trajetória profissional. Essa liberdade é chamada de volição.

Essa perspectiva pode deixar de lado uma parte importante da realidade: as restrições estruturais, a precariedade, o desemprego, a discriminação e as desigualdades de acesso a oportunidades. Para o Blustein, é necessário olhar não apenas para a adaptação das pessoas ao mercado, mas também para a transformação dos sistemas que produzem exclusão e sofrimento no trabalho.

A Psychology of Working Theory (PWT), ou Teoria Psicológica do Trabalho, busca justamente conectar dimensões psicológicas, sociais e econômicas. Ela foi construída para compreender as experiências mais diversas das pessoas — especialmente aquelas em situação de pobreza, vulnerabilidade, discriminação ou transições profissionais difíceis.

 

O trabalho e a saúde psicológica

desenvolvimento de carreira e qualidade de vida

 

Um dos pontos mais marcantes da apresentação foi a relação entre trabalho, saúde mental e bem-estar. Blustein retomou a noção de Sigmund Freud de que amar e trabalhar seriam as bases centrais para a saúde mental.

Deste modo, Blustein alerta que um trabalho insatisfatório pode ser gerador de exploração, humilhação e adoecimento. Quando o trabalho é decente e digno, ele pode cumprir funções psicológicas importantes, como oferecer segurança, pertencimento, reconhecimento e sentido. Quando essas condições não existem, os efeitos sobre a saúde emocional podem ser profundamente prejudiciais.

Uma trajetória teórica

A Psicologia do Trabalho teve importante consolidação ao longo de duas décadas. Em 2001 e 2006, o próprio autor apresentou uma perspectiva conceitual para pensar as questões do trabalho na vida das pessoas, ampliando o campo do desenvolvimento de carreira e das políticas públicas. Depois, duas contribuições teóricas marcaram essa evolução:

– 2011 — Teoria Relacional do Trabalho: destaca o trabalho como algo vivido em rede, por meio de vínculos, relações e conexões sociais.

– 2016 — Psychology of Working Theory (PWT) propõe um modelo que articula condições contextuais, acesso a trabalho decente e necessidades humanas fundamentais.

 

Trabalho, sobrevivência e poder

Blustein lembrou que o trabalho é essencial à sobrevivência humana. Ao longo da história, à medida que as sociedades se tornaram mais complexas, as formas de trabalho também se diversificaram.

A passagem de modos de vida baseados na caça e coleta para sociedades agrícolas trouxe consigo a noção de propriedade da terra. Com ela, surgiram também novas formas de acumulação de poder econômico e social. Para o autor, a psicologia vocacional, ou Orientação Profissional e de Carreira, muitas vezes evitou enfrentar diretamente a questão da sobrevivência — um silêncio que a PWT procura romper.

 

Conexão, contribuição e autodeterminação na carreira

Além da sobrevivência, o trabalho cumpre outras funções fundamentais. Ele favorece vínculos sociais, permite contribuir para o bem coletivo e conecta as pessoas a uma comunidade mais ampla. Seres humanos, argumenta Blustein, têm uma forte necessidade de relações que expressam sentido de pertencimento.

A teoria PWT também destaca a autodeterminação, entendida a partir de três dimensões:

– Competência: a experiência de dominar e ser eficaz naquilo que faz.

– Autonomia: a sensação de ter escolha e de endossar voluntariamente as próprias ações.

– Vinculação: a necessidade de se sentir conectado a pessoas e pertencente a grupos.

Nem todo trabalho possibilita essas três dimensões. Atividades desinteressantes, fisicamente desgastantes, dolorosas ou psicologicamente degradantes podem impedir o desenvolvimento de uma vida profissional autodeterminada.

 

O que é trabalho decente?

desenvolvimento de carreira
Segurança física e psicológica são bases do trabalho decente

Um conceito central da apresentação foi o de trabalho decente, inspirado nas diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ele envolve condições que vão muito além do ganho salarial.

Trabalho decente inclui:

– Condições físicas e interpessoais que geram segurança.

– Jornadas que permitam descanso e tempo livre.

– Valores organizacionais compatíveis com a vida familiar e social.

– Remuneração adequada.

– Acesso a cuidados de saúde.

Para Blustein, garantir trabalho decente não é apenas uma pauta econômica: é uma condição para a dignidade, a saúde mental e a justiça social.

 

Uma teoria de mudança para o desenvolvimento de carreira

A PWT foi apresentada como uma teoria de mudança, não apenas como um modelo explicativo. Ela propõe que transformações podem ocorrer tanto no plano individual quanto no sistêmico. Isso significa poder identificar fatores visíveis e invisíveis que influenciam as experiências de trabalho, ao mesmo tempo em que se desenvolvem práticas capazes de ampliar possibilidades reais para uma vida digna. A teoria articula três necessidades — sobrevivência, conexão social e autodeterminação — com implicações individuais e estruturais.

 

Agência/comunidade e ação crítica para um trabalho decente

consultoria em desenvolvimento de carreira

 

Blustein também destacou a importância da ação coletiva, que compreendemos como vida em comunidade. Para ele, pessoas e grupos podem enfrentar condições adversas de trabalho por meio de iniciativas práticas, crítica social e apoio mútuo. Entre elas estão:

– Engajamento proativo: identificar problemas e agir para enfrentá-los, como na denúncia de violações de direitos humanos no trabalho.

– Reflexão e ação crítica: compreender criticamente as forças sociais e econômicas que moldam o trabalho, reduzindo a atribuição de culpa em situações como o desemprego.

– Apoio social e engajamento comunitário: criar redes de apoio, círculos de trabalhadores e formas de cooperação que ofereçam suporte emocional e prático.

Essa perspectiva é especialmente relevante em tempos de desemprego, subemprego, trabalho precário e transformações provocadas pela inteligência artificial.

 

Novos desafios para a prática de orientação profissional

Segundo o pesquisador, os principais pontos de importância para quem atua com carreira, coaching, aconselhamento e políticas públicas devem ser:

– Indecisão de carreira.

– Crescimento das restrições no desenvolvimento profissional.

– Desemprego e subemprego.

– Trabalho precário.

– Impactos da inteligência artificial no mundo do trabalho.

Como caminhos de intervenção, Blustein sugeriu três ações: ampliar a liberdade das pessoas para decidir sobre seu trabalho, desenvolver uma leitura crítica das condições sociais e fortalecer ações coletivas diante das desigualdades.

Na prática, isso significa ajudar a pessoa a entender não apenas suas escolhas em processos de Orientação Profissional e transição de carreira, mas também os obstáculos externos que influenciam sua carreira — e construir estratégias realistas para avançar.

 

Um convite à reflexão sobre carreira

Ao encerrar, David Blustein convidou a audiência a refletir: Como integrar essa abordagem (PWT) à prática da Orientação Profissional ou desenvolvimento de carreira?

A resposta passa por quatro compromissos:

– Sensibilidade quanto a liberdade de escolhas ou volição para o trabalho.

– Olhar crítico sobre carreira e trabalho.

– Integração entre perspectivas macrossociais e psicológicas.

– Facilitação da agência das pessoas e dos coletivos.

Mais do que uma teoria sobre escolhas profissionais, a apresentação de Blustein foi um convite à ação. Ninguém constrói carreira sozinha. Um trabalho digno também é uma condição de saúde, dignidade e justiça social.

consultoria em desenvolvimento de carreira
Consultoria em desenvolvimento de carreira

 

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 Olívia Unbehaun Leal da Silva

CRP 12/12734

 

Fontes

Career Forum 2026 https://careermanagementschool.com/careerforum2026

The Psychology of Working Theory. – APA PsycNet https://psycnet.apa.org/record/2016-10839-001

Decent Work: A Psychological Perspective – PMC – NIH https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4806272/

Decent Work: Psychology of Working Theory https://academic.oup.com/book/59984/chapter-abstract/513326561?redirectedFrom=PDF

Expanding the Impact of the Psychology of Working: Engaging Psychology in the Struggle for Decent Work and Human Rights – David L. Blustein, Maureen E. Kenny, Annamaria Di Fabio, Jean Guichard, 2019 https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1069072718774002

Frontiers | Decent Work: A Psychological Perspective https://www.frontiersin.org/Article/10.3389/fpsyg.2016.00407/abstract

Why Work Matters: A Personal, Contextual, and Forward-Looking Exploration of Psychology of Working – David L. Blustein, 2023 https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00110000231208939

Decent Work: Psychology of Working Theory https://academic.oup.com/book/59984/chapter-abstract/513326561?redirectedFrom=fulltext

NCDA | Conference Speakers https://www.ncda.org/aws/NCDA/pt/sp/conference_speakers

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